“Se eu tiver que morrer,
você deve viver
para contar minha história”
(Refaat Alareer)
tudo parece que começou
em ’48 ou muito antes disso
nossos confusos pensamentos
outra vez mergulham em métrica insana
pedaço por pedaço foi roubado
uma por uma, casas somem
uma por uma, crianças clamam
as linhas cartesianas não enxergam isso
eletrical Gaza é pisoteada
quase não mais fala
corre-se pro mar: sem saída
corre-se pra viela: fechada
não se escuta o passo das cabras
(há cabras entre os que
resistem humanos?)
usa-se pau pedras facas drone
raios lasers teleguiados
atravessam carne osso eletricidade
quem mais lucra estrondos (morte)?
quem mais esconde verdades (assassínio)?
“Se ao menos fosse um pesadelo.
Se ao menos eu pudesse acordar
e tudo tivesse acabado.”
(Ruwaida Amer)
também hoje amanhã
o fim em artificial vigilância
com ataques de precisão
nos testículos corações agonias
revela a fome fatal
disfarçada de progresso-inovação
a linguagem revólver outra vez
espreita velho mundo novo
com traço de chão sangue
ao que em claras’telas
insistimos vazio esquecimento
Khan Yunis se amontoa monturo
debruçada no colo das mães
a cidade grão de areia
sobrevive dos rastros que silenciamos
mutatis technologia
o crime na mesma, genocida
minefield bombas solidão, ignoramos
quem mais monetiza indiferença (ruína)?
quem mais joga mentiras (abandono)?
“Uma história terminou,
e estamos caindo,
já sangrando, na próxima.”
(Sarah Aziza)
o exercício de violência
não é um futuro que desconhecemos
é um agora em deserto que nos condena
a poesia não foge apenas dos livros
se enterra no apartheid controle
das marcas remotas da robótica dor
Rafah refugio esquartejado
com suas tendas/hospitais
tomba na mira just in time
que pelos dedos off sentinelas
só a presença do tiro já lhe basta
ouvir poucos gatos diz do parco destino
quem mais se suporta na ausência?
quem mais se vangloria com isso?
longe, daqui, o peito
(e o que dentro pulsa) não duvida
vê a sombra que mancha a terra
rarefeita de metais invisíveis
cai com o som da fome dos dias
sangue de arma sem sentido
máquina eis impune
na mão uzi sionista
Samarone Marinho
Poeta, autor de Incêndios (2013, Prêmio Sousândrade), Ser quando (2017, Prêmio Jabuti), dentre outros. Professor de departamento de Geociência da UFMA.

Devastador! Como é a humanidade sob os escombros de Gaza! Palestina Livre! Abaixo o Sionismo!