O professor Samarone Carvalho Marinho é autor da obra Os conceitos da natureza. Na conversa com a Apruma-Seção Sindical, o autor discute os fundamentos filosóficos e geográficos da obra, os diálogos com o pensamento crítico contemporâneo e as contribuições do livro para a formação intelectual e interdisciplinar de estudantes e pesquisadores.
O lançamento da obra acontece no dia 16 de janeiro, às 18h, na Casa da Apruma (Rua do Egito, nº 207, Centro, São Luís–MA), com apoio da Apruma – Seção Sindical, reafirmando o compromisso da entidade com a valorização da produção acadêmica e do debate crítico.
APRUMA – O que motivou a escolha de Friedrich Schelling e Alexander von Humboldt como eixos centrais para a reflexão proposta em Os conceitos da natureza?
Samarone Marinho – Escrito na forma de ensaio, com o tema da unicidade de ideia e experiência à compreensão da natureza, esse trabalho fez o percurso mais plausível para a renovação de entendimento dos nossos dilemas acerca do que vem a ser o “natural” e nossa participação metabólica nele. A despeito de todas as discussões atuais sobre como vemos e vivemos na/com a natureza, Friedrich Schelling e Alexander von Humboldt, para mim, são um início da efetivação de um caminho. Falo de início por estarmos, modernamente falando, diante das primeiras tentativas de superação de poderosa dicotomia. Explico. A centralidade de Schelling e Humboldt para a reflexão sobre o conceito de natureza no final do século XVIII e início do século XIX reside precisamente em seus esforços filosófico-científicos de superação da dicotomia entre espírito (ou sujeito) e natureza (ou objeto), que dominava o pensamento moderno desde Descartes. Essa superação ocorreu por meio de uma síntese entre concepções dinâmicas (organicistas, vitalistas) e mecânicas (físico-matemáticas) da natureza, propondo, ambos, uma visão integrada, dinâmica e sistêmica.
Schelling, contrário à Natureza como res extensa (Descartes), regida por leis mecânicas, desenvolveu uma filosofia da natureza (Naturphilosophie) radical, onde a natureza não é um mero objeto morto, mas espírito em processo de tornar-se consciente. Ela possui uma produtividade interna (Natura naturans), uma tendência para a auto-organização e para a geração de formas cada vez mais complexas (plantas, seres humanos, por exemplo). Ao afirmar que natureza e espírito são dois polos de uma mesma realidade absoluta, Schelling dissolve a oposição: o mesmo princípio dinâmico que estrutura a natureza (desde forças físicas até organismos) é o que culmina na autoconsciência humana. A natureza é, portanto, sujeito em devir, não objeto inerte. Ademais, inspirado em descobertas científicas de sua época (eletromagnetismo, química, por exemplo), Schelling via a natureza como um sistema de tensões e polaridades (positivo/negativo, atração/repulsão), no qual o mecânico é apenas um momento do orgânico, que é o princípio de tudo.
Humboldt, por sua vez, partindo da observação empírica e de viagem científica pelas Américas (entre 1799-1804), chegou a conclusões convergentes com Schelling, mas por um caminho diferente. Em obras como Cosmos, Humboldt propôs estudar a natureza como um todo interconectado, onde clima, geologia, flora, fauna e sociedades humanas interagem reciprocamente. Seu pouco conhecido estudo Geografia das plantas – predecessor dos atuais estudos fitogeográficos – demonstrava que os fenômenos naturais formam uma rede de relações. Para Humboldt, a natureza é uma “teia de vida”, um sistema dinâmico onde forças globais (como correntes oceânicas, campos magnéticos, por exemplo) se articulam com formas locais. Isso superava a visão fragmentária e mecanicista. Estava integrado, aí, o homem como parte ativa da natureza, permitindo o estudo das sociedades humanas e de como, estas, sofrem influência do meio e, por sua vez, o transformam (antecedendo a noção de antroposfera de Eduard Suess).
Portanto, ambos os autores são centrais para a reflexão proposta porque substituíram o conceito de natureza como máquina por um conceito de organismo vivo, autorregulado e criativo. Mostrando que o ser humano não está fora da natureza, observando-a, mas é sua expressão consciente (Schelling) e seu participante ativo (Humboldt). E, por fim, Schelling e Humboldt são ainda centrais porque permitem termos uma visão unificada, dinâmica e relacional da natureza.
APRUMA – De que maneira a ressignificação do conceito de natureza dialoga com os desafios socioambientais e epistemológicos do mundo contemporâneo?
Samarone Marinho – Sob o prisma filosófico-científico de restaurar a compreensão unificadora de espírito e natureza, podemos apontar alguns caminhos capazes de dialogar com o pensamento ambiental hoje, seja na criação de outros sistemas de análise sobre a natureza seja na produção de críticas à visão disjuntiva sobre a mesma. Ao tomarmos a compreensão da natureza como um “organismo vivo”, elaborada por pensadores como Schelling e Humboldt, podemos ler que não se tratava ali de simples metáfora poética. Essa ideia, de certa forma, mostra-se uma base epistemológica importante para o pensamento ecológico atual e para as teorias ambientais que combatem a visão fragmentária do mundo. Podemos argumentar que tal perspectiva, que entende a natureza como uma totalidade viva, interconectada e sujeito de sua própria história, é o fio condutor que liga a filosofia romântica alemã às críticas anticapitalistas, decoloniais antiliberais, e ecofeministas da contemporaneidade. Ela serve tanto como lente analítica para diagnosticar a crise socioecológica quanto como horizonte ético para imaginar alternativas. A partir de ângulos específicos, podemos fazer alguns paralelos com os esforços críticos e analíticos de intelectuais na atualidade.
Começo com intelectuais que partem de uma interpretação onde a natureza-organismo não é uma abstração, mas uma experiência relacional vivida. Ailton Krenak em Ideias para Adiar o Fim do Mundo e em Terra: um organismo vivo, afirma que o planeta é um ser integrado, do qual somos parte. A disjunção moderna, para ele, é uma “desumanização” que nos torna “órfãos da terra”, permitindo sua exploração mercantilizada. Seu pensamento ecoa diretamente a Naturphilosophie, mas aterrissa em uma crítica ao colonialismo e ao desenvolvimentismo que rompem os laços orgânicos com o território. Nêgo Bispo em seu livro A terra dá, a terra quer sintetiza o que posso chamar de uma filosofia da reciprocidade. A terra é um sujeito ativo (que dá e quer), não um objeto passivo. Esta visão contesta radicalmente a lógica extrativista, que vê a natureza como um recurso inerte, e permite resgatar o princípio schellinguiano da Natura naturans – a natureza como força produtiva e desejante.
Por sua vez, em A reinvenção da natureza, Donna Haraway ataca a disjunção pela raiz, questionando os próprios “certificados de origem” que naturalizam hierarquias (humano/animal, homem/mulher, orgânico/tecnológico). Para ela, a “natureza” não é uma essência a ser descoberta, mas uma teia de relações construídas histórica e culturalmente. Seu conceito de “parentesco” (kin) estende as relações de família para além da espécie humana, incluindo animais, plantas e até entidades tecnológicas. Isso “reinventa a natureza” como uma comunidade de organismos interligados, superando a dicotomia. Seu Manifesto Ciborgue sugere que a fusão entre orgânico e tecnológico pode ser um caminho para essa nova política de afinidades.
No âmbito da crítica econômica, intelectuais como Maristela Svampa e Kohei Saito focam na ruptura material e econômica nos territórios e nas sociedades causada pela disjunção capitalista. Svampa, em As Fronteiras do Neoextrativismo, analisa como governos latino-americanos, mesmo progressistas, intensificaram a “espoliação da natureza” em nome do desenvolvimento. Sua crítica, permite vislumbrar como a visão da natureza como organismo vivo é o fundamento das lutas que defendem o território como um corpo integrado, ameaçado pela lógica disjuntiva do extrativismo. Saito, em O Capital no Antropoceno, recupera traços ecológicos em Karl Marx no que concerne a “ruptura metabólica” entre ser e natureza. O capitalismo, ao buscar crescimento infinito, cria “um ponto de não retorno” no metabolismo entre sociedade e natureza. A solução de Saito é o “decrescimento comunista”, que implica desacelerar a economia (monetária) para restaurar esse metabolismo. Seu argumento é uma radicalização econômica da visão de totalidade: o organismo Terra não suporta um sistema que rompe seus ciclos vitais.
Podemos inferir com esses intelectuais, que, de certa forma, a intuição de Schelling e Humboldt de que a natureza é um organismo vivo e interconectado provou ser relevante. Ela transcendeu o contexto romântico e se mostra uma base profícua para o pensamento ecológico radical. Ao fornecer uma visão de mundo que se opõe à disjunção cartesiana-capitalista, essa concepção pode alimentar, de forma diversa, as críticas decoloniais antiliberais, ecofeministas e econômicas que hoje são centrais para compreender e enfrentar a crise do Antropoceno. A força dessa ideia reside em sua capacidade de unir diagnóstico científico, crítica social e imaginação ética, reafirmando que nosso destino está indissoluvelmente ligado ao do organismo Terra do qual somos parte consciente.
APRUMA – Quais contribuições o livro oferece aos campos da Geografia, da Filosofia e dos Estudos Africanos e Afro-Brasileiros?
Samarone Marinho – Eu penso, particularmente, que esse livro pode, em alguma medida, dar uma pequena contribuição para renovação do pensamento contemporâneo nesses campos em questão. Ao resgatar e analisar o projeto filosófico-científico desses dois pensadores, o livro oferece as ferramentas conceituais para se superar a visão fragmentária e mecânica da modernidade, propondo em seu lugar um paradigma da totalidade viva, dinâmica e interconectada.
Para a Geografia, o livro é programático. Ele fornece o alicerce epistemológico para uma renovação dos estudos sobre a natureza, deslocando o foco do caráter mecânico e fragmentário (que mapeia elementos isolados: relevo aqui, clima ali, vegetação acolá) para a dinâmica dos processos formativos que tecem a realidade como um todo ao mesmo tempo diverso e indivisível. O livro demonstra como, para Schelling e Humboldt, a natureza não é um dado, mas um fazer-se contínuo (Natura naturans). Para a Geografia, isso significa estudar não as formas fixas do relevo, mas os processos geológicos dinâmicos, bióticos, atmosféricos e humanos que as engendram e transformam. O conceito humboldtiano de “fisionomia da natureza” – a expressão singular de uma paisagem resultante da interação de todas as forças – é um convite a uma Geografia sintética, que vê a floresta, o clima, o solo e os rios como notas de uma mesma sinfonia. Ao apresentar o método humboldtiano, que integrava medições quantitativas (a precisão mecânica e matemática) com uma intuição qualitativa da totalidade (a perspectiva orgânica), o livro oferece um antídoto à hiperespecialização. Tal conceito humboldtiano inspira uma Geografia Integradora capaz de dialogar com a Biologia, a Climatologia, a Geologia não descritivista e a Antropologia sem perder de vista o objeto maior: o sistemaTerra como organismo. Essa visão é a precursora direta do pensamento sistêmico em Geografia Física e da Ecologia da Paisagem, fundamentais para enfrentar desafios complexos como as mudanças climáticas, p. ex.
Para a Filosofia, o livro cumpre uma dupla e urgente função: reabilitar a Filosofia da Natureza como campo central de investigação e apontar para um fundamento histórico-conceitual pertinente para os debates contemporâneos. A Filosofia da Natureza, eclipsada no século XX pela virada linguística e epistemológica, revela-se, através da análise do livro, como base para uma crítica radical à modernidade. Schelling, ao postular a identidade entre espírito e natureza, oferece uma ontologia dinâmica que deslegitima a concepção da natureza como mero “recurso” ou “objeto inerte”. Esta ontologia é o alicerce filosófico de que necessitam os estudos ecológicos e geográficos integradores, pois a totalidade (em sua diversidade) é um imperativo ético e cognitivo, e não apenas uma metodologia. O livro permite, em termos de campo do possível, a aproximação com a ecologia profunda, o ecofeminismo e as críticas ao antropocentrismo. A luta contra a “dicotomia espírito-natureza” travada por Schelling e Humboldt é a mesma luta contra a disjunção humano/natureza que mobiliza pensadores como Donna Haraway ou Bruno Latour. Assim, a obra fortalece o campo filosófico ao conectar as críticas atuais ao capitalismo e ao extrativismo a uma tradição metafísica relevante, dando-lhes maior profundidade e escopo argumentativo.
Embora o livro trate de pensadores europeus, sua contribuição para os Estudos Africanos e Afro-Brasileiros é passível de mediação. Ele legitima e permite-se a instrumentalização para um campo possível de investigação comparativa e de descolonização do conceito de natureza. Ao estabelecer com certa clareza os parâmetros de uma “Filosofia da Natureza” no cânone ocidental, a obra cria um ponto de referência importante para um diálogo simétrico com interpretações africanas e afro-diaspóricas. Ela demonstra que a ideia de uma natureza viva, sagrada e totalizante não é um “primitivismo”, mas uma posição filosófica sofisticada, com potenciais paralelos em Schelling. Isso valoriza e complexifica o estudo de sistemas de pensamento como os presentes no Candomblé ou em filosofias Ubuntu, que veem a força vital (ashé, ntu) permeando todos os seres. O livro permite, num caminho de instrumentalização, que uma investigação sobre “conceitos de natureza em filósofos africanos e pensadores afro-brasileiros” seja um subcampo viável e necessário. Pensadores como Mogobe B. Ramose (com sua filosofia Ubuntu baseada na interconexão), ou a noção de “terra como organismo vivo” em Ailton Krenak, podem ser postos em conversa crítica com a tradição schellinguiana-humboldtiana. Esse diálogo pode revelar tanto afinidades (a crítica ao mecanicismo) quanto divergências radicais (o lugar da ancestralidade e do sagrado), enriquecendo tanto os Estudos Africanos quanto a própria compreensão da Filosofia da Natureza a partir de perspectivas sul globais.
Meu livro, por fim, com seus limites, se quer uma ferramenta intelectual que contribua para a reconstrução interdisciplinar. Para a Geografia, oferece a base para um paradigma da totalidade processual; para a Filosofia, reafirma o poder fundante de sua reflexão sobre o natural; para os Estudos Africanos e Afro-Brasileiros, abre uma vereda para diálogos interculturais críticos que descolonizam o próprio conceito de “natureza”. Ao fazer isso, o livro mostra que o projeto de Schelling e Humboldt – superar a fratura entre sujeito e objeto, espírito e natureza – permanece não só atual, mas indispensável para qualquer pensamento que queira responder, de forma integrada e crítica, aos desafios socioecológicos do nosso tempo.
APRUMA – Que impactos o livro pode ter na formação crítica de estudantes e pesquisadores?
Samarone Marinho – É importante em um momento histórico como este em que vivemos, de usos fratricidas dos bens naturais, que discussões como esta sejam feitas. É papel de todos nós, em tempos críticos como este, trazer os elementos intelectuais necessários a interpretação, a ação e a mudança do estado das coisas como elas insistem querer se apresentar.
Ao lançar no livro a hipótese interpretativa de que a compreensão da natureza, em sua inteireza, se dá através do intelecto e da experiência reitero que a busca aprofunda um metodologia sintética entre pensamento especulativo e investigação empírica. Tal metodologia, p. ex., permite a estudantes e pesquisadores a analisarem a realidade socioambiental não como um conjunto de partes desconexas, mas como uma totalidade complexa e inter-relacionada, que é justamente o que pedem as crises contemporâneas.
A maneira como o livro articula ideia e experiência não serve apenas para entender a natureza. Fundamentado em princípios críticos, o livro permite o exercício pedagógico crítico, pois a dialética entre ideia e experiência exposta é, salvaguardado o paralelismo, a mesma que anima uma educação problematizadora, à maneira de Paulo Freire. Neste horizonte o processo educativo é uma circulação constante entre aquilo que chamamos de “prática” e aquilo que chamamos de “teoria”, onde uma ilumina e transforma a outra. Essa dinâmica é exatamente a mesma posta em ação pelo livro ao interpretar as proposições de Schelling (teoria/ideia) e Humboldt (prática/experiência).
Se o meu livro suscitar também essa reflexão, me darei por realizado.

É de uma importância essa publicação para o pensar e fazer pesquisa! Em uma atmosfera de aproximação com o pensar geográfico, não distanciado do pensar filosófico! E trazer essas conexões, para os Estudos Africanos e Afro-Brasileiros, é totalmente está a frente do seu tempo! Essa obra é um despertar de um quarto de hospital, para a luz intelectual de querer pesquisar de uma maneira não estática.