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Entrevista: Prof. José Arnaldo Jr. analisa a atualidade do pensamento de Yves Lacoste sobre o subdesenvolvimento

 Geógrafo e docente da Universidade Federal do Maranhão (UFMA/Campus Codó), o professor José Arnaldo dos Santos Ribeiro Junior é organizador e tradutor da obra Yves Lacoste – Escritos de Geografia do Subdesenvolvimento (1962–1968). Na conversa, o autor reflete sobre a atualidade do pensamento de Lacoste, a centralidade do subdesenvolvimento para a análise das desigualdades espaciais e os desafios teóricos e políticos colocados à Geografia contemporânea.

O lançamento do livro acontece no dia 16 de janeiro, às 18h, na Casa da Apruma (Rua do Egito, nº 207, Centro, São Luís–MA), com apoio da Apruma – Seção Sindical, que reafirma seu compromisso com a valorização da produção acadêmica e com o fortalecimento do debate crítico entre docentes, estudantes e pesquisadores.


APRUMA – Qual a relevância de revisitar hoje os escritos de Yves Lacoste sobre o subdesenvolvimento e que contribuições eles oferecem para a compreensão das desigualdades contemporâneas?

José Arnaldo Jr. – Em primeiro lugar, os textos reunidos recolocam o fenômeno do subdesenvolvimento não somente como um problema econômico, mas também como um fato global que atravessa diversos domínios da vida social (política, cultura) e exige uma abordagem interdisciplinar (economia, história, sociologia, etc.).
Em segundo lugar, Yves Lacoste problematiza – àquela época – a tímida participação da Geografia no que tange a esse problema fundamental. O enfrentamento ao subdesenvolvimento é uma tarefa simultaneamente teórica e política.
Finalmente, os textos permitem uma leitura das desigualdades como processos espaciais cumulativos que se manifestam em polarizações, na extraversão dos circuitos econômicos e na fraca difusão de benefícios no território.

APRUMA – De que forma a organização, tradução e anotação desses textos inéditos dialogam com os debates atuais da Geografia Política e da Geopolítica?

José Arnaldo Jr.  – Yves Lacoste fundou uma das revistas mais prestigiadas de geografia e geopolítica, Hérodote. Reunir esses textos dispersos, anteriores à inauguração da revista, nos ajuda a recolocar o fenômeno do subdesenvolvimento como um eixo central para pensar as sociedades capitalistas dos “países menos desenvolvidos” (tal qual classifica a ONU).
Além disso, a ação de traduzir transcende o ato de verter conceitos e visões de mundo. Ela também dispõe de um enorme potencial democrático que possibilita a circulação internacional de teorias e ideias. O professor Guilherme Ribeiro, da UFRRJ, ensina que “traduções podem ser compreendidas como uma forma de método apta a iluminar a seleção dos geógrafos estrangeiros promovidas pelos brasileiros”. Eu concordo plenamente com essa afirmação e acrescentaria: a tradução é uma mediação epistemológica e, arriscaria dizer, um objeto epistemológico. Por isso foi decisivo contextualizar o pensamento lacosteano – atravessado pelas discussões acerca do papel do Estado, do imperialismo, da dependência, inter alia. Esses temas se mantêm atuais.

APRUMAComo a noção de subdesenvolvimento trabalhada por Lacoste ajuda a interpretar a crise do capitalismo e suas expressões espaciais no século XXI?

José Arnaldo Jr.  – Lacoste entende subdesenvolvimento como uma distorção interna entre o crescimento econômico e o crescimento demográfico. Mas também explicita que o imperialismo é um dado primordial do subdesenvolvimento, atuando via minorias privilegiadas (que podemos ler como as classes dominantes) internas e as grandes corporações monopolistas que imprimem a direção das políticas de desenvolvimento dos Estados. A meu ver, isso é importante para, hoje, ler as cadeias globais de valor, o fenômeno da financeirização, as políticas extrativistas, etc.
O geógrafo também observa que os lucros da exportação são apenas parcialmente investidos internamente e que os circuitos econômicos se orientam para fora, para o estrangeiro. Tal observação revela que os países centrais continuam a comandar as economias periféricas, enxergando esses territórios como plataformas de exportação – com efeitos deletérios sobre os países periféricos (problemas ambientais, por exemplo). Veja o recente caso do Acordo Mercosul-União Europeia. Comemorado pelo presidente Luiz Inácio da Silva, é um tratado que – para o caso brasileiro – fortalece o agronegócio, provavelmente aumentará a destruição ambiental e aprofundará a desindustrialização do nosso país.

APRUMAQue impactos o livro pode ter na formação crítica de estudantes e pesquisadores no Brasil?

José Arnaldo Jr.  – Em primeiro lugar, eu espero que essa obra possa democratizar ainda mais o acesso a escritos de geógrafos francófonos importantes, a exemplo de Yves Lacoste. Ainda, salientar a importância do que Lacoste chama de articulação dos diferentes/diversos níveis de análise. Fortalecer o diálogo interdisciplinar a respeito do subdesenvolvimento, especialmente com as Ciências Sociais. Enfim, o subdesenvolvimento, o desenvolvimento desigual, continuam sendo temas de pesquisa e ensino atuais e instigantes que terminam por desafiar os pesquisadores e os estudantes brasileiros.

1 comentário em “Entrevista: Prof. José Arnaldo Jr. analisa a atualidade do pensamento de Yves Lacoste sobre o subdesenvolvimento”

  1. Uma ótima ligação de pensamentos e reiteração textual de acesso, antes da revista Heródoto. Para quem cursa não somente Geografia, mas também Ciências Econômicas, em uma visão não só quantidade de procurar analisar a problemática do subdesenvolvimento.

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